O Dia Em Que Eu Descobri Que Era Apenas Um Blogueiro Metido

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— Introdução —

Não é fácil ter que lidar com a realidade, especialmente quando ela nos obriga a reconhecer que nossa posição não é tão lisonjeira quanto gostaríamos…

Parte 1 _ Ambiguidade

Sempre me vi de formas diversas e contraditórias ao longo da vida. Tenho meu lado cético, mas também meu lado místico, sou minimamente intelectualizado, mas não chego a ser acadêmico ou cientista; amo ensinar e aprender, mas detesto escola e tenho pavor da carreira de professor; amo as mulheres, mas, desde que uma tentou me atropelar, morro de medo delas.

Por ser uma criatura essencialmente ambígua, fico perplexo quando me deparo com aquelas pessoas com posturas firmes, confiantes, repletas de crenças inabaláveis. Céus! Como conseguem?

Parte 2 _ Matrix

Nunca fui assim, tenho tanta inveja quanto estranhamento em relação a esse povo. Há certos dias em que acordo, olho para o Merlin (meu gato preto ) e lhe acosso:

“ Confesse, Merlin. Esse mundo é a matrix e você não passa de um dèjá-vu fofinho, pode dizer”.

Então ele dá um miado, como que debochando, e fica me encarando com aqueles olhos amarelos, o que eu evidentemente interpreto como uma confirmação.

“Rá! Eu sabia, esse mundo é a matrix!”

Houve o dia em que fiquei tão fissurado nessa ideia que cheguei a responder, no Quora, explicando um pouco sobre a matrix.

Matrix, de certa forma, pode ser interpretado como a grande metáfora cinematográfica do nosso tempo para as ilusões que fazemos do mundo e de nós mesmos. Ilusões que, via de regra, costumam ser muito importantes para a manutenção da falsa autoimagem que gostamos de construir. Convenientemente falsa, porque a realidade é sempre menos glamorosa que a ficção. Belas mulheres, por exemplo, não soltam peidos na ficção, mas os soltam na realidade (e infelizmente eles não são perfumados).

Mas mesmo que estejamos fadados a nos iludir, felizmente ou infelizmente, os mais autocríticos também estão fadados a perceber e ter que encarar as próprias ilusões. Foi justamente o que aconteceu comigo no dia em que percebi que eu era um mero blogueiro.

Parte 3 _ Pau No C# do Leitor

Há gente que escreve por hobby e sem nenhuma pretensão literária, mas esse não é exatamente o meu caso. Sempre fui polêmico e pretensioso, para o bem ou para o mal. Kafka dizia que um texto deve ser como um soco no estômago. Em outras palavras, deve ser algo que cause alguma reação e impacto no leitor. Não basta dizer uma verdade, as vezes é preciso dizê-la de forma desagradável, e até mesmo leviana. O leitor hoje em dia anda tão entorpecido com literatura best-seller idiota que já perdeu o hábito de refletir, ou mesmo de perceber o quanto a reflexão é importante.

Quando um escritor percebe isso, o dever dele é provocar os leitores, e o escritor pode realizar essa missão dizendo coisas importantes novas e inimagináveis ou dizendo coisas importantes antigas de um jeito novo e inusitado. O importante é incomodar o leitor, não deixá-lo confortável; afinal, um bom leitor é sempre um leitor incomodado, daquele tipo que te enche na caixa de mensagens ou te para na rua para falar alguma coisa daquele seu último texto, nem que seja para meter o malho. (E os bons escritores acham especialmente divertido quando os leitores metem o malho com propriedade).

Parte 4 _ Vaidade Besta

Nesse quesito, provocar a inteligência alheia, provocar reações, em minha recém carreira literária, eu tive algum sucesso, considerável até. Talvez mais sucesso do que um escritor iniciante e metido deveria ter. Tive a sorte de atrair leitores, alguns admiradores, alguns incentivadores e até um certo renome em alguns ambientes. Não quero falar em números, mas imagine ir dormir sendo um blogueiro absolutamente desconhecido e acordar sendo um nome relativamente conhecido numa das maiores plataformas para escritores online.

Foi mais ou menos o que me aconteceu. Um dia eu percebi que minhas iniciativas literárias estavam dando frutos, monetários, inclusive. Não era muita coisa, mas para alguém que achava que iria demorar ao menos uns vinte anos, era muita coisa. E foi então que comecei a querer introduzir um elemento de glamur na coisa. Mas, felizmente, em minha defesa, eu posso culpar uma mulher. Na verdade, duas.

Parte 5_ Golpista Afetivo

Tudo começou numa festa safada numa capital federal. Daquelas festas que as pessoas vão para fazer coisas inconfessáveis com pessoas que nunca viram na vida. E lá estava eu, no auge dos meus vinte e cinco, em minha fase junkie-intelectual, experimentando os prazeres da vida boêmia e da sexualidade desregrada. Conversava com duas loiras lindas, alunas de medicina, e preparava o bote. Conversa vai, conversa vem, uma delas pergunta o que eu faço.

Tecnicamente, na época, eu era um vagabundo profissional, blogueiro, golpista afetivo e psiconauta intelectualizado. Mas eu não respondi com a verdade. O diabo sussurrou a poderosa palavra em meus ouvidos: escritor. Fiquei excitado com aquela possibilidade, me apresentar como um homem de letras, um profissional da palavra, não um iniciante. Nenhuma mulher fica excitada com iniciantes. Não, eu tinha que posar de profissional, de garanhudo literato, e tinha de fazer isso porque era cool, divertido e interessante. E foi o que eu fiz.

Parte 6_ Pacto Com o Tinhoso

Deu certo. E eu peguei as louras. As duas. Assim o pacto com o Diabo foi consolidado. E eu não parei mais. Em qualquer canto que chegasse, dava a carimbada: “escritor”. Como o meu meio social não é o de pessoas letradas (no Brasil nem as classes letradas são realmente letradas), o impacto era fulminante. Todos os olhares se voltavam para mim, todas as atenções. E logo vinham as sugestões: “bem que você poderia escrever um livro sobre isso, ou sobre aquilo”.

Não vou mentir: foi bastante divertido. Mas, para ser franco, algo, em meu íntimo, me incomodava. Pelo simples fato de que, embora eu escreva, ainda não sou um escritor. Nem tenho livro publicado ainda. Sou apenas um blogueiro intelectualizado que conseguiu cativar algum público em alguns ambientes na internet. Blogueiro, futuro escritor. Sou um quase, uma promessa. Se eu terminar meu livro, e publicar, viro escritor. Estreante. Que não é lá grande coisa, mas já é um começo.

Parte 6 _ Um Blogueiro

“Ué, John, mas blogueiro não é escritor?”

Alguns são, outros não. A maioria não é. Eu não sou. Se for pegar o significado mecânico do termo, então até quem escreve bula de remédio é escritor, pois está escrevendo. Mas se considerarmos o aspecto artístico ou cultural da coisa, ou o caráter intelectual, veremos que nem todo mundo que escreve é, de fato, escritor.

Houve o dia em que percebi isso. Foi o dia em que eu saí da matrix. Foi quando finalmente percebi que só poderia virar um escritor quando reconhecesse que eu sou, por hora, um blogueiro. Um blogueiro interessante e promissor? Talvez. Mas preciso melhorar. Melhorar em muita coisa.

E, claro, preciso terminar o livro que comecei.

Até foi legal fingir que eu era escritor, mas resolvi parar.

Parte 7 _ Escritor Safadinho

É hora de começar a tentar ser um de fato.

Afinal, ainda há muitas louras, e morenas, e negras, para quem quero me apresentar, e conceder alguns autógrafos.

Se é que vocês me entendem…

Considerações Sobre o Percurso

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Dois anos frequentando a Biblioteca da escola quase todos os dias mudou minha vida.

Pergunta-me o amigo sobre minha jornada intelectual. Que lhe posso dizer? Antes de tudo, devo dizer que não está concluída, mas em curso. Sobre minha motivação; foi, pura e simplesmente, uma empreitada individual, induzida por uma constatação e consolidada por uma escolha pessoal.

Desde a pré-adolescência, quando pude conscientizar-me melhor das coisas, minha mente, diante da complexidade do mundo, era assolada por questões, problemas, fenômenos, mistérios, que eu desejava compreender, saber a verdade a respeito. O deslumbramento com o mundo e seus elementos me intrigava, produzindo em mim o “desejo de conhecer” do qual falava Aristóteles. A Libido Sciendi, no termo dos escolásticos. Sentia e sinto, cá em minha alma, a paixão investigativa, detetivesca, que move cientistas, filósofos e todo o tipo de investigadores, que corresponde a um certo amor pelo conhecimento, pela verdade.

Foi essa paixão (ou um conjunto de paixões afins) que me moveu a, laboriosamente, ir galgando degraus na jornada do conhecimento, do entendimento, das ciências, da filosofia, da sabedoria, da educação, dos aspectos nebulosos da vida…

Em outras palavras, na vida “real”, ninguém jamais disse-me que deveria me esforçar para compreender racionalmente as coisas. Diziam-me para “estudar” (o que, para eles, significava freqüentar instituições de ensino e concluí-las), diziam-me para obter diplomas, diziam-me para obter um emprego que me concedesse estabilidade financeira e diziam-me para ir à Igreja. Na mentalidade dos meus instrutores, não havia espaço para alimentar e procurar responder indagações pessoais profundas sobre a natureza das coisas. Queriam antes que minha vida fosse tão medíocre e sem sentido quanto as deles.

Como já disse, haviam dúvidas na minha cabeça. E por mais que  às vezes eu tentasse me enquadrar, as dúvidas continuavam lá, a me angustiar. O mundo me parecia complicado. Como provar que Deus existe? Por que há tantas guerras? Por que há tantas religiões? Por que derrubaram o Word Trade Center? Por que meus pais acreditam em Deus, mas muitos cientistas não? Por que Deus faz chover maná do céu, mas não faz chover dinheiro para os pobres? Por que Deus não faz crescer outros membros nos amputados? Se Deus é bom, por que existe tanto mal no mundo? Por que tenho que freqüentar a escola e igreja se nelas ninguém responde minhas perguntas?

De início, pensava-me muito tolo. Imaginava que todas as pessoas compreendiam bem como as coisas funcionavam e que apenas eu não. Mas aos poucos fui notando o equívoco: enquanto, na vida intelectual, eu ia descobrindo e me assustando com minha ignorância, a maioria das pessoas, que jamais haviam experimentado uma vida intelectual autêntica e autônoma, não tinham a menor idéia da dimensão da própria ignorância. Tal autoconhecimento lhes escapava, pois a vida inteira haviam aprendido a silenciar suas dúvidas e… obedecer e seguir autoridades.

Logo comecei a testar a inteligência das pessoas. Dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus professores. Foi a experiência mais frustrante da minha vida. Ficou claro que eu estava cercado de ignorantes. Por outro lado, finalmente a sociedade brasileira, e a estrutura da sociedade em geral, foi fazendo sentido para mim. Passei a entender por que a linguagem corrente dos meus pais e mestres era tão pobre em comparação com a linguagem dos escritores de livros. Estavam em níveis mentais, em níveis de compreensão, de léxico e de informação, distintos. Os autores de livros entendiam o mundo ou aspectos relevantes do mundo, a ponto de falar sobre eles de modo lógico, estruturado, belo e racional. Meus pais e professores não.

Uma experiência decisiva foi, durante alguns anos, frequentar assiduamente a biblioteca da escola, lendo tudo o que me interessava. As vezes, matando aula. Três livros chave que li nesse período, que foi mais ou menos dos quinze aos dezessete, foram: Breve História de Quase Tudo (sobre história da ciência e da humanidade); O Mundo de Sofia (um romance clássico sobre a história da filosofia); e Fernão Capelo Gaivota (sobre retiro social e evolução espiritual em contraponto ao espírito de manada). O primeiro me ensinou o quanto a história dos progressos da humanidade era indissociável da história do conhecimento; o segundo me ensinou que, realmente, pensar e questionar, em níveis mais profundos, não era uma habilidade comum e popular; e o terceiro me ensinou que para evoluir seria necessário conflituar e me afastar da sociedade.

Assim, aprendi que a maioria não estava interessada em compreender as coisas. E que a maioria não havia aprendido que, com esforço e compromisso intelectual, era possível responder as próprias dúvidas de forma inteligente e profunda, inclusive trazendo reflexões e descobertas importantes para a comunidade humana,  tal como cientistas, artistas e filósofos tinham feito ao longo da história. Além disso, ficou claríssimo para mim que, em geral, autores e personagens de livros eram mais inteligentes e mais interessantes que as pessoas comuns. Uma lição que parece se tornar mais verdadeira a cada dia.

 

Esquizofrenia Afetiva e Impermanência

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John Nesh e seu grande amigo imaginário. Cena do filme Uma Mente Brilhante.

 

Ao contrário do que normalmente se supõe, a perda do senso de realidade não é o que distingue os loucos dos sãos, mas justamente o que os aproxima.

Usualmente, o louco é caracterizado pela total ou quase total perda do senso de realidade. O homem comum, contudo, é caracterizado pela  perda sempre pontual e parcial desse senso; perda essa que – diferente do caso do louco – não chega a impossibilitar as atividades do dia à dia, mesmo produzindo grandes angústias e confusões no espírito.

Vejamos: o homem comum é levado, pelo hábito ou pela inércia, a crer na realidade dos laços afetivos que cria tal como é levado a crer na realidade do vento ou das árvores. Na infância, se bem educado, ele aprendeu que o destino das coisas naturais é a finitude. Ele sabe que os ventos mudam de direção, sabe que as árvores morrem. Contudo, por algum motivo, quando os laços afetivos parecem fortes e poderosos, ele quer, ele deseja, ele espera que durem para sempre. Pior: ele conta com isso. Diz frases tolas e, inadvertidamente, em discursos apaixonados, faz uso do “para sempre” ou “de até que a morte nos separe“. Ele faz  planos. E sonha. De tal modo que a ilusão se agiganta, tornando-se alucinação. Ele alucina na intenção de fazer perene um estado de coisas que, assim como tudo o que existe, está fadado a destruição.

É quando o laço subitamente se rompe, por um jorro qualquer de realidade inesperada – não é preciso a morte para separar, a realidade já basta – que ele vê a ilusão esquizofrênica ir pelos ares. O que parecia real e perene já não é mais. A realidade concreta, cruel, imprevista, atual, golpeia, viola, zomba do que ele julgava a realidade efetiva. E pela primeira vez o homem comum se sente obrigado a indagar-se sobre a natureza das coisas, sobre a natureza da realidade, das relações, dos afetos. Ao refletir sobre o contraste entre a realidade esperada e a realidade vivida, chega, enfim, à metafísica. Levanta questões: “Que é, afinal, a realidade? Que devo esperar dela? Como posso ter me iludido tanto, julgado real o que era imaginário, julgado perene o que era momento?”

Se bem educado, ele se lembrará de Heráclito, lembrará a máxima da impermanência, lembrará que “tudo flui“. Ou talvez – mais provável- vá lembrar da canção de Lulu Santos: “…nada do que foi será/ do jeito que já foi um dia/ Tudo muda/ Tudo sempre mudará…“. Se for dado a narrativas orientais, lembrará do princípio do “Tao“. E talvez, como Proust ou como todos os grandes memorialistas, ficará obcecado pelo tempo, pelas interações humanas, pela natureza ilusória das coisas. Dará algum sorriso de suas tolas pretensões de juventude, quererá ter aproveitado melhor determinados momentos, dito certas coisas a certas pessoas.

Mais tarde, com o passar dos anos, vacilará em suas memórias. Voltará a duvidar do que foi real, do que pareceu real. “Ela me amou?” “Foi minha amiga?” “Era tudo ilusão?”, “O que não existe mais, existiu algum dia?”. Mas já não dá mais para saber. É tarde demais para saber. Nunca foi possível saber. Nunca será. Ele então aprenderá que a realidade nunca é óbvia e que sempre há algo de esquizofrênico nos afetos: no início você acredita neles, julga poder provar que  existem. Mais tarde, contudo, sabe perfeitamente bem que são ilusões, tudo coisa da sua cabeça.

Nas palavras dos Titãs “...Eu aprendi/ A vida é um jogo/ Cada um por si/ E Deus contra todos….

Quando se trata das relações humanas, a única certeza que se pode ter é a da impermanência. Todo o resto é ilusão e esquizofrenia afetiva.

Intelectualidade e Solidão

Outro dia, um amigo, jovem e muito inteligente, solicitou algumas considerações minhas sobre solidão. Poucos dias depois, outro amigo, sem relação com o primeiro, mas também inteligente e jovem, perguntou-me se a vida intelectual era necessariamente solitária.

Nesta semana, outro camarada, inteligente e um pouco mais velho, comentou que havia desistido de tratar as pessoas como intelectualmente equivalentes. Esse amigo finalmente percebeu que era melhor respeitar os limites delas e, na vida prática, evitar exigências cognitivas e reflexivas que estivessem muito além desses limites. Afinal, como é sabido por todos, o homem comum não está apto a refletir. Disse-me, o meu amigo, que era melhor que as pessoas se sentissem no controle e mais inteligentes, pois assim era mais fácil manipulá-las e aturá-las (Esse amigo trabalha numa posição de liderança, numa organização prestigiada, onde precisa exercer autoridade e influência).

Hoje, um quarto confrade – também inteligente e um pouco mais velho que os dois primeiros – confessou que havia chegado a conclusão de que uma vida intelectual rica não é possível perdendo tempo com todo mundo. Nas palavras desse amigo:

“..Acho que nós, amantes do conhecimento, temos mesmo é que caminhar sozinhos a maior parte do tempo. Não dá para querer ser o herói dessa gente, sem se perder no processo, sem perder energia vital que poderia ser utilizada em outros projetos…”

Pois bem. A experiência e a conclusão dos dois amigos mais velhos responde as dúvidas dos dois amigos mais novos. Contudo,  sei que meus dois amigos não me  fizeram tais perguntas porque não soubessem, ou não intuíssem, as respostas. Sei que já sabiam.

Perguntaram-me  pois  me julgam honesto o suficiente para lhes ser sincero. Sabiam que se perguntassem a outro iriam ouvir alguma conversinha demagógica sobre como “todo mundo tem algo a ensinar” ou sobre “como se deve aprender com todo mundo” ou ainda sobre como é importante ter  “uma vida social eclética e variada” e  “estar bem inserido na sociedade”.

Bom, se o que se quer é ser como qualquer um, fazer as coisas no nível de qualquer um, pensar como qualquer um, então o caminho é, realmente, se misturar com qualquer um, ouvir qualquer um, fazer o que todo mundo faz e, em consequência, obter os mesmos resultados e ser como o homem médio, com aquele QI médio nada lisonjeiro, típico de uma sociedade cuja cultura contém uma dose extremamente elevada de anti-intelectualismo e de praticidade imediatista.

Por outro lado, se o que se quer é obter resultados superiores, compreensão superior, ser diferente da turba, será necessário agir de modo diferente da turba. É preciso saber que a vida intelectual, nos seus aspectos mais exigentes, mais elevados, não é uma escolha, mas um sacerdócio. É vocacional, não é para qualquer um. Ela exige mais do que o homem comum está disposto a sacrificar.

Quanto maior e mais profunda for a compreensão de um homem sobre um assunto, mais dificuldade as pessoas terão para compreender o que ele está dizendo, e por conta dessa dificuldade, menos interesse elas terão. Não estão dispostas a fazer os mesmos sacrifícios para adquirir as mesmas habilidades cognitivas, a mesma profundidade e a mesma sensibilidade intelectual.  Isso acontece em qualquer área do conhecimento, é um padrão que tem a ver com a estrutura hierárquica do conhecimento, que reflete a estrutura hierárquica da Natureza.

Há uma ótima entrevista com o Richard Feynman na qual, em termos epistemológicos, ele ilustra bem o ponto em questão. Feynman  – um dos maiores físicos do século passado –  explica sobre a  impossibilidade de um entendimento elevado, ao homem comum, quando esse conhecimento vai além de certos limites populares e de certa linguagem popular. Não há como fugir disso. Seja para a Física, seja para a Antropologia, seja para qualquer área do conhecimento organizado.

Então, sim. A vida intelectual é, em certa medida, necessariamente solitária, pois por mais que se possa criar  uma fraternidade de sábios e eruditos, para aplacar essa solidão, a quantidade de sábios e eruditos disponíveis nunca será tão abundante quanto a quantidade de pessoas comuns – pouco sábias, pouco eruditas –  disponíveis.

O que torna, em média, o intelectual, o amante do conhecimento, mais solitário do que o homem comum. Se isso já é verdade para países cuja cultura valoriza mais o conhecimento, como a Inglaterra e E.U.A, é uma verdade ainda maior para um país de marcada tradição anti-intelectual como é o Brasil.

Os companheiros mais frequentes do intelectual são os bons livros, as boas músicas e os bons vinhos. Quem possui pretenções intelectuais deve, antes de tudo, considerar essa realidade.

 

 

 

 

 

 

 

Apenas Começando…

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Jack Keruac, um escritor muito organizado.

Na dinâmica da vida moderna, a conjunção entre tempo, sexo e dinheiro é bastante improvável. Aparentemente, nossa relação com tais elementos é a seguinte: quando crianças, temos dinheiro (proveniente de nossos pais) e também temos tempo, mas não temos sexo.  Quando adultos, temos sexo e dinheiro, mas nos falta tempo. E quando idosos, desfrutamos tempo e dinheiro, mas não conseguimos mais usufruir do sexo. Assim vivemos uma vida sempre incompleta, sempre com alguma lacuna.

Não é diferente a vida do escritor iniciante. Há sempre lacunas existenciais e conflitos com os quais ele precisa lidar. E cada progresso realizado exige alguma perda, algum sacrifício.

Tomem como exemplo o meu curioso caso: há cerca de dois anos atrás, eu praticamente não tinha leitores. Contudo, desfrutava de um relacionamento amoroso, de um emprego, tinha um curso universitário para concluir, onde eu era o aluno mais destacado, e tinha também um monte de expectativas familiares sendo depositadas sobre mim. Mas havia uma lacuna, com a qual eu não sabia lidar. Ela foi crescendo e crescendo, até que virou um monstro e acabou devorando minha mente. Com isso, pensamentos suicidas e condutas errantes acabaram dominando meu comportamento. Eu havia perdido meu caminho, havia entrado em um mundo de ilusões e  de desejos que não eram os meus.

Tive que encarar uma boa dose de sofrimento e angústia para me dar conta de que aquilo que eu realmente precisava tinha a ver com Arte, com Livros e com Textos, não com respeitabilidade social, prestígio e dinheiro. Foi em um dia de lágrimas onde tudo a a meu respeito ficou claro, muito claro. Desse dia em diante, não tive mais dúvidas do meu papel no mundo, da minha vocação. Era óbvio. Sempre foi óbvio. E então, de repente, eu me sentia um idiota, e me perguntava “como pude fugir de mim mesmo por tanto tempo?”. Foi quando tomei a decisão: iria me dedicar a melhorar minha escrita e trabalhar com isso, mesmo sem ser ter as exigências burocráticas necessárias. E se o mundo social me fazia mal, era melhor me isolar.

Foi exatamente o que fiz. Um retiro intelectual deliberado. Sem namorada, sem emprego, sem universidade, sem compromisso, sem respeitabilidade, sem prestígio e sem expectativas que não as minhas. O que ganharia? Só o que preciso: solidão, silêncio, introspecção, isolamento, internet, livros e tempo para pensar e escrever.

É nesse mundo que agora habito e é dele que vos ecrevo.

O que aconteceu com o vazio? Foi domesticado, incrivelmente  domesticado. Aprendi que há vazios que podemos suportar e  que há vazios que não podemos: descobri que posso ficar sem sexo, mas não sem silêncio. Que posso ficar sem respeitabilidade e prestígio social, mas não sem introspecção e  bons livros.

E foi depois de me afundar nesse caminho clichê (mas honesto) de escritor anti-social que consegui, vejam só, leitores!

Essa conquista, que me parecia impossível, é agora tão real e mensurável que, além de me impressionar, assusta. Afinal, não posso mais ser leviano e desinteressado. Se alguém vai desperdiçar tempo (o recurso mais valioso) com o que escrevo, então é minha obrigação escrever algo valoroso, útil, relevante.

Sinto que preciso fazer o diferencial e dar ao leitor algo que só eu possa lhe oferecer, uma síntese de estilo, temática e conteúdo original, que reflita minha personalidade  provocativa, meio diabólica e inquieta. E fazer isso… é difícil!

Por ainda ser um iniciante, estou buscando encontrar meu próprio tom, minha própria música. Por isso venho experimentando várias plataformas, temáticas e maneiras de escrever, de provocar reações nos leitores.

Os resultados tem variado. O que ocorre, contudo, é que o fato de imergir nessas outras plataformas me faz deixar este blog parado. E ainda não sei bem o que fazer sobre isso. Talvez eu mude o formato e o deixe para as crônicas mais existencialistas, só com textos, sem imagens. Bem, é uma possibilidade. Mas tenho que pensar.

Seja como for,  quero agradecer a cada seguidor. A cada pessoa que leu o que escrevi por aqui. Agradeço cada curtida, cada minuto no qual vocês dedicaram sua curiosidade a descobrir o que poderia haver nas palavras desse escritor em crise.

Continuarei mantendo atividade literária variada em plataformas diferentes. Estou experimentando e quero ver no que vai dar. Se vocês gostaram do que escrevi por aqui, talvez se interessem em dar uma olhada no que faço em outras plataformas:

Quora: é basicamente uma rede social de perguntas e respostas. Mas essa descrição deixa de fora o essencial. O Quora, a meu ver, é um dos lugares mais intelectualmente excitantes que há na internet em português. Embora a qualidade tenha decaído um pouco, ainda tem muita gente interessante por lá. Engenheiros, Químicos, Autodidatas, Médicos, Professores, Escritores, Estudantes… Não há limites. basta ser curioso e ter o que perguntar ou o que responder. É uma comunidade extremamente interessante. Você pode me encontrar e seguir por lá. Se não se interessar por minhas respostas, há um monte de outros escritores que podem te interessar.

Medium: É uma plataforma para escritores. Meus artigos e análises mais elaboradas vão ser postados por lá. Se você já possui uma conta e quiser me seguir por lá, fique à vontade. Se ainda não conhece, vale experimentar.

SeboPirata: Vocês certamente não sabiam, mas eu vendo livros. É uma coisa bem amadora, na verdade. A renda é baixíssima. As vendas são ocasionais e o mais interessante são as pessoas que conheço no processo. De qualquer forma, pretendo expandir a coisa. De tal modo que acabei fazendo um blog simples, minimalista, para falar sobre os livros e autores que passarem por meu acervo, e também para falar sobre as vendas, o perfil dos leitores, essas coisas.

Facebook: Não recomendo de forma alguma que me adicionem por lá. Faço um personagem totalmente politicamente incorreto, diabólico e provocador. O objetivo básico é incomodar e provocar: Levar à reflexão por meio do absurdo. Vez ou outra sou censurado pelo Zucky. Falo mal de tudo e todos, rico, pobre, judeu, brasileiro, branco, preto, estrangeiro, gay, hétero. Se for humano, leva pedrada.  Tudo com muita sátira, ironia e uma boa dose de loucura com pessimismo trágico. Algumas pessoas (as mais inteligentes) entendem, gostam e se divertem. Outras não entendem, mas se divertem. E outras nem entendem e nem se divertem, mas ficam profundamente ofendidas. Eu aviso: meu facebook é o inferno da mente: é onde todas as depravações do ID se manifestam. É Sade, é Foucault, é Joselito Sem Noção e é Legião da Má Vontade também. Não entrem lá!

Por hora, é isso. Grande abraço a todos.

Miscigenação, Machado e os Clássicos

Certa vez, um amigo nerd me disse que eu tinha “alma de branco”. Sorri, complacente, entendendo perfeitamente o que ele queria dizer. Sempre me vi mais ou menos como Machado de Assis se via. Machado era miscigenado, tinha ascendência ao mesmo tempo negra e portuguesa. Notem o caráter essencialmente ambíguo, que explica, em parte, o talento do bruxo para construções irônicas.

Machado, que nasceu pobre E gago E mestiço. E que mesmo assim se autoeducou.
Ainda jovem, ao ler os clássicos, nosso maior escritor incorporou em sua forma de pensar tambémos padrões mentais do ocidente. Curiosamente, comigo (sendo eu, provavelmente, o nosso menor escritor) aconteceu a mesma coisa. Nasci pobre e cresci pobre (era até uma pobreza confortável, tínhamos piscina em casa). Morei numa cidade sem beleza e caótica, mas os livros me abriram as portas para Paris, Londres, Glasgow, Sicília, Rússia, Canadá, Madagascar, África do Sul, Tanzânia e Alemanha, entre outros lugares. Os livros me deram a honra de conhecer Marco Aurélio e Maquiavel, Socrátes e Descartes, Marie-Anne Paulze e Mary Shelley.

Viajando por tantos lugares, conhecendo tantas ideias e pessoas interessantes no mundo inteiro, era natural que eu gostasse de ler. Então, igualzinho a Machado, continuei lendo os clássicos. Por anos. E, como Machado, me descobri ambíguo. Mas o meu caso era pior, muito pior. E sabem porquê?

Pelo simples motivo de que além de ascendência negra e espanhola, tenho também ascendência judaica e indígena. Se Machado era ambíguo, eu sou a ambiguidade e a esquiva em pessoa. Minha alma está fracionada em quatro. Mas, desses quatro espíritos, os únicos cujo legado chegava até mim era o dos malditos brancos ocidentais. Ora, o amigo leitor há de convir que melhor esse legado do que nenhum. E fui conferir o legado ocidental. Anos depois, cá estou, a pensar sobre como esse legado me moldou e me ajudou a ficar mais inteligente, mais culto, mais sábio e dar algum sentido à minha existência frágil e destroçada (para isso, fazendo coisas como este meu vil e repugnante hábito de escrever).

Como Machado, não deixei de me apropriar do que havia de valoroso na cultura do Ocidente apenas por que os brancos do passado foram um bocado estúpidos e grosseiros com os outros povos.

Machado, que além de ser pobre E mestiço E gago era TAMBÉM epilético. E mesmo assim foi mais genial que qualquer branco metido da época.

Sejamos honestos com o homem branco: desde Caim e Abel os homens estão sendo estúpidos e cruéis uns com os outros. A esquerda não sabe disso porque faltou catecismo, ou não prestou atenção. É sério: afinal, alguém pode me explicar porque motivo o homem branco haveria de não ser estúpido, dominador e aventureiro, como em geral são os homens? Crer no contrário é pressupor, indiretamente, que o homem branco possui alguma superioridade moral sobre os outros povos. Faço notar que os magistrais autores do Destino Manifesto, do Mein in Kampf e os digníssimos membros da Ku Klux Klanpensavam exatamente desse modo, defendiam, com furor revolucionário até, essa pretensa superioridade moral dos brancos.

Eu não. Quando soube de Caim e Abel aprendi que os homens são estúpidos e problemáticos desde o início dos tempos, inclusive o tão badalado homem branco. A estupidez, aliás, parece uma das poucas coisas que Deus distribuiu de modo igual entre os povos. Sabendo disso, nunca tive lá grandes motivos para me surpreender com os erros que os homens cometem. Mas os acertos, esses sim me surpreendem. Tanto que eu me dediquei a estudar os acertos dos povos e aprender com seus erros, inclusive do povo branco ocidental.

Machado, que além de ser pobre, mestiço, gago e epilético, sabia mais de Shakespeare do que o seu atual professor de Shakespeare.
Voltando ao meu amigo: sabia perfeitamente que ele estava querendo dizer que eu não tinha problemas para compreender o modo de pensar ou as instituições do ocidente. Mas também aludia ao fato de que essa habilidade não é comum nos negros e mestiços do Brasil.

Essa rara habilidade é o motivo pelo qual eu nunca tive particular afinidade com qualquer coisa que estivesse associada a uma suposta “cultura negra brasileira”. Eu lia e gostava de conversar sobre livros. Então, mesmo sendo mestiço e relativamente pobre, nunca conseguia participar da cultura popular associada a gente mestiça e pobre. Ocorre que havia pouca coisa em literatura sobre os incríveis e fenomenais MC’S e os pagodeiros da minha infância. Por algum motivo que me escapa — relevância, talvez — os autores mais inteligentes não estavam escrevendo sobre eles. O EgitoNapoleão e Einstein pareciam temas mais incríveis e fenomenais. E havia muita literatura sobre eles. E assim eu escapei de ser escravo do futebol e da gloriosa Rede Globo (para quem a inteligência do telespectador médio é a mesma do Homer Simpson).

Comentei com um amigo, também mestiço- embora metido a negão: “você é o segundo preto culto que eu conheço. O primeiro foi eu”. Ele caiu na gargalhada. Entendeu perfeitamente o que eu queria dizer.

Em geral, o negro e o mestiço estão relegados ao esporte e às artes. Adentrar na vida intelectual é quase um pecado. Ler Homero, Dante ou Dostoiéviski é deixar de ser comedor e popular.

Cá em Brasília, encontrei um negro inteligentíssimo. Lera muito mais literatura que eu. Lia de Burroughs a Beckett, cursava Filosofia e sua aparência lembrava Basquiat. Obviamente ficamos amigos. E ao comentar sobre a raridade de nossa situação, ele concordou:

É difícil achar um preto que também goste de ler”.

Milton Santos. Um dos poucos que correu dos estereótipos. Não era comedor e nenhum galã de novela, mas deu aula no MIT , sabia mais de História e Geografia do que seu melhor professor de História e Geografia e seu nome é lembrando como uma das mentes mais inteligentes que o país já teve.
E nós lamentamos. Ele o futebol, eu a cultura do Funk e do Rap. E ambos concluímos que não era exatamente o problema de se focar em um nicho cultural (eu gosto de Mv BillRacionais, Projota, Dexter, APC 16 Gabriel o Pensador), mas sim se tornar preso a ele, incapaz de apreciar o que há de bom nos outros fenômenos culturais, nas histórias, nas artes e nos talentos dos outros povos, raças, etc.

Por isso jamais comprei o discurso de que os negros são pobres coitados oprimidos pela elite branca maligna. Ou de que os negros e mestiços são pobres, inferiores, burrinhos e precisam de cotas. Não, nada disso. O que os negros, os mestiços, e todos os brasileiros precisam é uma só coisa: mais cultura e mais leitura. É o provincianismo ególatra e ressentido que apequena , ilude e destrói nosso país e nosso povo.

As pessoas não fazem ideia do quão ricas podem ser as viagens interiores. Ou do quão sábias e revigoradas elas podem voltar da leitura de um bom livro.

O brasileiro precisa viajar mais pelo mundo (se não tiver grana, que o faça literariamente. A experiência interior em nada perde para exterior) e mais pelas mentes dos homens mais inteligentes do passado, independente dos erros que eles tenham cometido. Façamos como fizeram Machado e Milton Santos, que foram homens mais inteligentes do que nós: tratemos de devorar os Clássicos, nos apropriar da Lógica e das Ciências e saber utilizar esses conhecimentos para melhorar nossas vidas. Afinal, mais conhecimento, mais cultura e mais inteligência nunca é demais.

O mundo é mais interessante do que costumamos lembrar

Descobrir algo novo, fascinante, incrível e inusitado sempre me deixa animado, meditativo, embasbacado, pensando que esse nosso mundo é mesmo um lugar muito interessante, cheio de coisas doidas, inacreditáveis, que tornam nossa experiência de vida muito mais dinâmica e interessante. E quando eu digo “mundo”, me refiro a tudo mesmo, pessoas, objetos, lugares, ideias, acontecimentos, relações.

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Lembrança

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O famigerado Sebo do Vicente

Eis um dos registros mais icônicos de minha mocidade. Estava com meus amigos no famigerado Sebo do Vicente, o único da pequena cidade de Queimados, na Baixada Fluminense, interior do Rio de Janeiro. Pela foto, fica a impressão de que nós dopamos o senhorzinho e saqueamos o lugar. Provavelmente essa foi a intenção zombeteira do fotógrafo. Deu certo. Mas o senhor dorminhoco não era o Vicente, aliás, eu não faço ideia quem era.

Com toda certeza esse sebo era um dos lugares mais undergrounds da Baixada. Primeiro pela desorganização claustrofóbica que, como se pode ver, era ímpar. Segundo pelo fato esquisito de que o Vicente também vendia, no sebo, temperos variados, de modo que o lugar era infestado pelo cheiro de Orégano. E terceiro pelo fato de que Vicente, extremamente cordial, costumeiramente oferecia café enquanto lia uma Playboy antiga e comentava os pentelhos da Cláudia Raia.

Apesar das bizarrices, o sebo deu bons frutos. Acreditem ou não, um de nós comprou o clássico Laranja Mecânica por uns cinco reais lá. Eu consegui uma coletânea do Will Durant, meu historiador agnóstico conservador preferido, por uma pechincha; além de muitos quadrinhos no formatinho.

Mas isso foi a alguns anos atrás. 6, 5 anos? Parece que foi ha uma década. Parece até coisa de outra vida.

A Importância de Reconhecer a Própria Ignorância

Já ouviu falar, respeitável leitor, no Efeito Dunning Kruger? Não? Poxa, mas como você é burro mesmo! Mas tudo bem, estamos aqui pra resolver isso. Como sou um burro que está em tratamento, estamos no mesmo barco.

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Efeito Dunning Kruger é um termo da literatura psicológica que  descreve o bizarro fenômeno de que – preste bastante atenção nisso – quanto menor é a  habilidade numa área, mais equivocado é o próprio juízo sobre a habilidade que se tem nessa área. Entendeu? Não, né? Deixa eu dizer denovo, mas de outra forma: quanto mais competentes somos numa área, mais competentes somos pra julgar nossas habilidades nessa àrea. Vamos deixar as coisas ainda mais claras? Vamos.

O efeito Dunning Kruger ocorre, por exemplo, quando uma pessoa que é muito ruim  em matemática se julga boa nesse assunto. Basicamente o que ocorre é que  o conhecimento dela sobre a área é tão precário que ela não consegue ter a dimensão correta dos níveis de dificuldade e dos melhores critérios pra se julgar as habilidades e inabilidades matemáticas. Assim, por não estar bem informada sobre como medir suas habilidades na área, ela faz um julgamento precário e acredita que é melhor do que realmente é. Por outro lado, se perguntarmos a um matemático competente, ele saberá julgar melhor o seu nível de habilidade, uma vez que, sendo mais competente e instruído, ele domina melhor o assunto.

O que esse fenômeno deixa óbvio é que nossos  julgamentos sobre nossas habilidades em uma dada área são prejudicados quando não dominamos bem essa dada área. Isso explica coisas pitorescas como o fato de um intelectual erudito como Olavo de Carvalho ter afirmado que  a Pepsi usa células de fetos abordados, sentença que foi minuciosamente analisada e desmistificada pelo doutror e vlogger Pirulla, o qual está muito mais informado sobre Biologia do que o sr. Olavo.

eu não sei e me recuso a descobrir!

O fenômeno explica também o porque  dezenas de pessoas sem o menor talento musical participam de concursos na tv. Elas simplesmente não tem ideia do quanto são ruins naquela área, porque tem tão pouco domínio do assunto que não tem critérios musicais para julgar o próprio desempenho.

Por conta desse fenômeno, é extramemente importante entender que nós só devemos se atrever a julgar um assunto (ou levar a sério nosso julgamento) quando o tivermos explorado consideravelmente. Do contrário, estaremos fadados a achar que fizemos um bom juízo, quando na verdade nem tínhamos a capacidade pra isso.

É interessante notar que o efeito Dunning Kruger é a maior causa de comportamentos burros em todo o universo conhecido, afinal a esmagadora maioria dos macacos falantes  prefere julgar indiscriminadamente qualquer assunto, mesmo sem saber absolutamente nada a respeito.

Em suma, o efeito Dunning kruger pode ser resumido assim: quanto mais ignorantes somos sobre algo, mais ignorantes somos sobre nossa ignorância a respeito desse assunto. E, por isso, nos tornamos incrivelmente confiantes para falar e pensar asneiras sobre ele. Em bom português, quanto mais burros, menos percebemos nossa burrice.

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Portanto, se o amigo leitor  detectou sua burrice, e de forma milagrosa chegou até aqui, é porque é mais esperto do que imagina. Milhares mundo afora são tão burros que não chegam nem sequer a cogitar imaginativamente ou desconfiar que o sejam. Coisa terrível, eu sei.

Assim, caro leitor, recomendo que você adote a postura que em filosofia se chama Epoché e que, enquanto fica quieto, vá estudar o assunto e melhorar suas habilidades antes de sair dando pitaco e se julgar melhor  e mais preparado que alguém.

Como Lidar Com Cristãos Irracionais e Dogmáticos – Um Guia Para Pessoas Pacíficas

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Eis um exemplo do que não fazer com seus filhos.

Ateus, agnósticos, céticos, religiosos democráticos, místicos, estudantes de filosofia, livres pensadores… Enfim, quem quer que seja razoavelmente democrático, racional e já tenha tido a experiência de lidar com um cristão dogmático e fundamentalista sabe que não é a mesma coisa que lidar com uma pessoa em seu pleno juízo.

Quanto mais você alega que o religioso está louco, mais ele dá glórias à Deus; quanto mais se diz que algumas passagens da Bíblia são absurdas e até desumanas e criminosas, mas o crente afirma que a palavra de Deus é “mistério”. E assim o debatedor racional sai completamente frustrado e sem saber argumentar contra alguém que não aceita argumentos.

O fato é que é preciso toda uma malícia especial para lidar com os crentes fundamentalistas. Tendo eu tido a oportunidade de desenvolver tal malícia (sou agnóstico e convivo com pessoas desse tipo desde muito tempo), pensei ser interessante expor alguns métodos simples que aprendi ou desenvolvi, na esperança de que possam ser úteis a outros.

Se for possível ficar longe de cristãos dogmáticos, fique. Se não for, use as dicas.

1. Regra de ouro: mantenha o bico calado sobre religião.

O modo como você pensa sobre religião só diz respeito a você. Ninguém que seja dogmático irá respeitar ou sequer analisar seus pontos de vista. Se quer falar ou debater sobre esse assunto, seja sensato: procure alguém com mente aberta.

crente chatinho

Nunca caia no erro de conversar sobre religião com um cristão irracional e dogmático; porque, caso você demonstre interesse sobre o tema, o religioso provavelmente verá uma deixa para explanar o próprio ponto de vista — dogmático e não racional — a respeito, ou pior, poderá ainda tentar lhe converter.

Obs: essa dica deve ser aplicada nos “conhecidos” com quem se tem pouca intimidade, mas também funciona para pregadores chatos. Tudo que eles querem é alguém com quem falar, então não dê corda.

2 . Resista e Manipule

Considere que estamos no Brasil e que aqui há fortes credos católicos, protestantes e neopentecostais. Assim sendo, é muito provável que uma hora ou outra, em alguma situação, você acabe tendo de ouvir o discurso de um religioso dogmático.

Em vista disso, caso você seja um sujeito polido e pacífico, treine seus ouvidos e sua mente para ficar impassível ante as maiores incongruências e bizarrices nonsense que o religioso dogmático irá proferir (recomendo fazer isso lendo a Bíblia com frequência,vendo vídeos do Olavo de Carvalho ou ouvindo testemunhos como este aqui).

crente chato do caralho

Se acabarem as desculpas para sair de perto da pessoa, saiba mudar de assunto sem que ela perceba (de preferência emendando algum tema que a ela goste e fazendo praticamente uma entrevista sobre ele).

Para os mais ousados, vale a pena treinar a hipocrisia social a ponto de poder esboçar um sorriso cordial ao mesmo tempo em que sente sua capacidade crítica ser ofendida e observa a lógica e a sanidade serem grotescamente violentadas, as duas ao mesmo tempo.

Invista na falsidade e manipulação, elas são indispensáveis nos relacionamentos sociais com pessoas imaturas (ou seja, quase todos os brasileiros, em especial os crentes). As pessoas preferem as mentiras reconfortantes mais absurdas do que qualquer verdadezinha que lhes fira o ego e a sensibilidade.

Portanto, utilize isso a seu favor: aprenda a fingir que não se importa em orar. Aprenda a orar como se acreditasse na oração. Aprenda a dizer “ore por mim” e a dizer “amém”.

Guarde sua honestidade para quem possui maturidade e inteligência para aceitá-la. Quando se trata do cristão dogmático, vale o dito bíblico de não jogar pérolas aos porcos.

Obs: essa dica deve ser aplicada em pessoas legais mas terrivelmente crentes, com as quais você não gostaria de discutir. Eu sempre a utilizo para parentes queridos e pessoas religiosas e dogmáticas que me tratam muito bem.

3. Se for para contrapor, faça-o com exigências intelectuais e sarcasmo brutal

Ainda assim, nem sempre será possível fazer vista grossa, manter a boca fechada ou mudar o tema do assunto. Dependendo da postura, da burrice, do fanatismo e da intolerância do religioso com o qual você estiver lidando, ficar calado será praticamente impossível.

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Nesse contexto, as pessoas polidas e de tendências pacíficas devem apenas mencionar que discordam, sendo tão enfáticas em sua posição quanto a pessoa religiosa for na sua. Talvez seja preciso dizer ao religioso que você não acredita no mesmo que ele, ou mesmo que acha que ele está errado. Evite, pois o dogmático irá crer que você precisa de salvação, de toda burrice que ele pode oferecer e de outras coisas mais (talvez ele até pense que você está com o demônio no corpo ou que está sendo usado pelo tinhoso).

O melhor a fazer é mostrar que você entende mais de Bíblia do que ele: diga que ele não entendeu a bíblia, e que ela é um livro histórico e cultural. Conte a ele sobre a alegoria da caverna de Platão e diga que ele está aprisionado. Questione-o se ele sabe como a bíblia foi composta, fale sobre os conselhos ecumênicos, os textos apócrifos e as diversas interpretações divergentes do credo ortodoxo.

cristianismo pagao

Fale sobre as centenas de fracionamentos do protestantismo. Se possível, mencione o livro Cristianismo Pagão, de Frank Viola. Evite as falácias usadas no documentário Zeitgeist, grande parte daquilo é mentira. Diga que a melhor interpretação teológica do apocalipse é a de que ele já aconteceu.

Monopolize o discurso. Mostre as incoerências e contradições Bíblicas. Afirme categoricamente que a evolução é um fato e exemplifique com termos técnicos da biologia evolucionista (se você, como eu, não entende muito de biologia evolucionista, comece pesquisando as referências deste texto aqui, ou apenas reproduza o que ele diz). Quando o religioso se opor, continue no mesmo ritmo frenético com bombardeio de informações contrastantes. Ele te achará perigoso e provavelmente se afastará.

Obs: essa dica você vai saber em quem aplicar.

4. Mude de estratégia.

Caso nada disso funcione, é melhor você começar a ser belicoso ou debochado e provocativo.

Educação e crescimento do pênis

Daniel Fraga
O lendário Daniel Fraga

Concordo cem por cento com a frase do Daniel Fraga de que “pobre deveria pedir licença para existir”. Contudo, devo esclarecer: penso em outro tipo de pobre.

O Sr.Fraga, um anarco-capitalista, provavelmente se refere ao pobre da classificação econômica. Já eu, estudioso de psicologia, penso numa pobreza mais séria, mais profunda e mais difícil de ser resolvida: a pobreza mental, da psique, do espírito.

Como apesar de novo sou um tanto vivido, já conheci fortes candidatos a mais baixos exemplares de nossa espécie (excluindo a hipótese — bastante provável — de que fossem neanderthais infiltrados).

Durante dois anos, senti-me como Immanuel Kant se sentiria se fosse obrigado a viver entre galinhas, que são, como diz meu irmão, os bichos mais burros que existem. A burrice, no meio onde fiquei, era tanta, mais tanta, que cheguei a me sentir primeiro um sujeito esperto; depois, inteligente; e, por fim, um gênio de capacidade incontestável.

Nesse lugar, superabundavam os pobres de mente. Pessoas que são incapazes de compreender a função de um livro, ou o prazer do aprendizado, ou de qualquer coisa que exija algum grau de abstração pós-primário.

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O pobre de mente.

Nesse antro, um sujeito me questionou certa vez o porquê eu lia tanto. Pensei que era impossível explicar sobre educação àquela criatura. Então, respondi apenas que gostava e que aprendia como o mundo funcionava. Dizendo também que, caso ele se interessasse por algum assunto, ler a respeito poderia informá-lo e esclarecê-lo.

Ele, brilhante, filosoficamente me respondeu:

“Ah, fala sério, ler não vai fazer minha pica crescer!”

Depois disso, eu compreendi que existem pessoas que realmente não tem interesse algum de enriquecer a própria mente. Foi só então que percebi que há membros da massa, meus caros, que adoram ser massa.

O mais curioso, no entanto, é o fato (que eu jamais lhe disse, claro) de que ele estava errado. 

Argumentos são discutíveis, opiniões não.

Com frequência maior do que considero saudável, reparo — em discussões e pretensos debates — colocações e posturas que, para dizer a verdade, me constrangem um bocado; pois, vindas de pessoas inteligentes, só fazem reiterar minhas suspeitas quanto a eficácia da (des)educação tupiniquim.

Falo da liberdade que as pessoas se dão para, com insistência, defenderem ideias a respeito de assuntos sobre os quais estão completamente desinformadas ou, na maioria dos casos, possuem apenas informações aleatórias, jornalísticas, toscas, oriundas do senso comum e de páginas de curiosidades da internet.

Tal fenômeno pode ser constatado em conversas corriqueiras sobre qualquer assunto. Se considerarmos tais opiniões quando inseridas em conversas informais e descompromissadas, não há do que se queixar. O problema é que as gentes costumam confundir conversa com debate e opinião com argumento. Erro muito comum, mas também muito danoso. O que chamamos de opinião, por si só, é incapaz de sustentar um debate saudável.

O termo “debate” se refere a um tipo específico de interação onde duas ou mais pessoas travam julgamentos diversos a cerca de um assunto, usando, para a avaliação desses juízos, um ou mais critérios — lógica, conhecimento técnico, conhecimento científico, argumentação crítica, conhecimento filosófico, uma mistura de saberes ou qualquer outra área do conhecimento — sempre de forma lógica, racionalizada, analítica e argumentativa.

Em outras palavras, é preciso ter uma quantidade mínima de informações e argumentos para defender uma ideia num debate.

Uma opinião (exceto a tal ‘opinião bem fundamentada’, que muitas vezes é, na verdade, um argumento) é apenas uma escolha arbitrária de ideias fundamentados nas preferências individuais de alguém. Opiniões, em geral, surgem de fatores menos conscientes; como gostos, preferências, propagandas bem assimiladas, informações soltas que pegamos por aí e, claro, os famosos pré-conceitos.

Já os argumentos surgem de análise, reflexão crítica, raciocínio lógico e informação a respeito do assunto.

É quase impossível chegar num resultado quando debatemos considerando apenas opiniões. Há muitos casos clássicos dessa dificuldade. Vejamos um problema estético. Minha namorada acha lindas algumas candidatas do American Next Top Model, enquanto eu acho todas uma magrelas-cadavéricas-sem-carne-pra-apertar.

É óbvio que temos preferências subjetivas estéticas bem diferentes. Por isso é completamente nonsense discutir qual preferência é melhor sem critérios objetivos para julgar. E nem eu nem ela temos lá bons critérios objetivos pra julgar esteticamente. Ora, nós nunca nos informamos a respeito desse assunto, por isso sei que me encontro incapaz de debater dignamente sobre o tema.

A consequência é que nós até conversamos, mas jamais debatemos a esse respeito. Por outro lado, conheço um mínimo sobre filosofia pra oferecer argumentos contra o relativismo moral ou a dialética marxista, e um mínimo de economia para compreender os problemas a respeito da teoria da exploração e julgá-la como ultrapassada e equívoca. São conhecimentos e informações que adquiri com algum estudo, análise e dificuldades. Estou certo que ainda tenho muito a aprender e muito o que aprimorar (aliás, sempre terei), contudo, o fato é que, para o bem ou para o mal, me informei um mínimo do mínimo sobre tais assuntos, o que me permite oferecer alguns argumentos aos invés de meras opiniões.

Infelizmente, porém, tenho me deparado com pessoas — muitas vezes inteligentes e queridas — que se ofendem quando deixo claro que não posso levar a sério suas opiniões, uma vez que, pelo que dizem, fica patente que não estão informadas sobre o que estão falando.

Por motivo que me escapa, imediatamente sou tomado como um tipo de maníaco dogmático dono da verdade. Se explico o porquê não posso concordar, meus argumentos são tomados como opinião; se mostro as culminâncias bizarras de algumas ideias, meus ditos são levados para o campo pessoal e sou acusado de praticar argumento ad-hominem.

Porém, curiosamente, quando converso com pessoas minimamente informadas (ou mais), recebo elogios, compreensão e aprendo o que está equivocado na maneira de pensar deste ou daquele autor ou neste ou naquele argumento, e se critico determinadas ideias, me recomendam livros com uma abordagem mais esclarecedora ou com certa desconstrução de mitos.

O mais triste é que as pessoas que se ofendem com o que digo preferem me considerar um mau-caráter metido a sabichão do que pesquisar sobre o que falei. É realmente uma pena, pois “a verdade continua sendo verdade mesmo quando dita por um louco”. E eu, que sou completamente pirado, tenho apenas duas qualidades e quinhentos quatrilhões de defeitos. É notável que sou debochado, escroto e auto-complacente, mas se estou errado ou certo no que digo, isso só pode ser descoberto analisando O QUE digo e não o COMO digo.

Sendo sincero, embora me impressione negativamente o fato da maioria das pessoas — inclusive alguns bons amigos — desconhecerem a diferença básica entre opinião e argumento, felizmente já aprendi que, no país do homem cordial, tudo é levado para o lado pessoal, de modo que há coisas que você realmente não deve falar.

De qualquer modo, seria bom que as pessoas soubessem que opinião não se discute, mas argumento sim.

Parem de cair na falácia da igualdade

diversidade

Existe, no mercado de crenças contemporâneo, a ideia extremamente emburrecedora (muito vendida e muito comprada) de que somos todos iguais. Ela é tão alardeada, propagandeada e massificada que aposto que você, amigo leitor, já se deparou com alguma versão.

Se você é um dos inocentes que comprou essa ideia, estou aqui pra te avisar que fez péssimo negócio: você caiu numa vigarice intelectual. Sim, meu amigo, é triste dizer, mas você foi feito de otário.

Calma, não fique bravo comigo: meu papel aqui é te alertar, e não posso fazer isso sem ser claro, sem ser realista e sem dizer as coisas tais como elas são. Por favor, caro leitor, não seja tão vaidoso a ponto de só aceitar a verdade quando ela vem recheada de eufemismos ou quando ela só favorece o que você acredita.

Compreendo que isso pode ser difícil numa era em que o politicamente correto ameaça dominar a linguagem, mas garanto que ser autocrítico e realista lhe trará maturidade. Honrado e nobre é o ser humano que, ao identificar um tirano filho da puta, alerta seus companheiros declarando alto e em bom som: “Eis aqui um tirano filho da puta”. Por outro lado, vil e imperdoável deve ser aquele que mascara a linguagem para transformar assassinos em santos.

Dito isso, podemos voltar ao tema central.

Já vou explicar o por que você foi enganado. Mas, para isso, lhe darei algumas pequenas tarefas. Nada que doa, eu prometo. Só preciso que você reflita um pouquinho.

Pense por alguns minutos na pessoa mais inteligente que você já conheceu. Pensou? Ok, muito bem. Agora pense na mais burra, na mais ignorante, na mais tola. Notou alguma diferença fundamental?

Pense agora, por alguns minutos, na Madre Tereza de Calcutá. Pense em Chico Xavier, em Jesus Cristo, em Mahatma Gandhi, em Martin Luther King ou simplesmente na pessoa mais sábia que você já conheceu. Agora pense em Hitler, em Charles Manson, em Calígula, no Maníaco do Parque ou simplesmente na pessoa mais cruel e depravada que você já conheceu. Percebeu alguma diferença?

Sem dúvidas, todas essas pessoas tinham algo em comum. Todas elas tinham uma estrutura biológica similar, a estrutura biológica dos humanos. Isso só significa, contudo, que elas tinham coisas em comum, não significa que eram iguais. Ao pensar nelas e compará-las, você provavelmente percebeu que elas não eram psicologicamente iguais. Em outras palavras, você percebeu que elas não pensavam e não agiam da mesma forma.

Os seres humanos, quando comparados, possuem coisas em comum e também discrepâncias. É justamente por conta das discrepâncias, características individuais, exclusivas, que as pessoas não podem são exatamente iguais. O que torna cada ser humano único é o fato de que ninguém possui as mesmas particularidades. É aquela coisa de existir características em você que só existem em você. Aquela coisa da sua digital ser única: a isso chamamos individualidade.

Note que é crucial aqui entender o significado da palavra “igual”. Um ente “igual” a outro é um ente cuja constituição total é a mesma que a de outro ente. Agua é igual a H20. Cachorro é igual a Cão. Na boa e velha linguagem da lógica, o princípio da igualdade é formulado como A=A.

Ocorre que seres humanos são constituídos por elementos comuns, como a estrutura fisiológica, mas também por elementos individuais, exclusivos, como a constituição psicológica de cada um. Ou seja: seres humanos não possuem exatamente a mesma constituição total. É por isso que eu sou eu, você é você e ele é ele. Se fossemos literalmente iguais, esses pronomes nem fariam sentido.

Resumindo: temos coisas em comum, mas como temos características exclusivas, não somos iguais.

Acreditar que somos iguais é, portanto, negar a realidade. E a consequência dessa negação é muito perigosa, pois não estabelece a devida distinção. Tal negação coloca os maus no mesmo nível em que os bons, os virtuosos no mesmo nível em que os depravados, os honestos no mesmo nível em que os mentirosos. Tal negação equivale a não diferenciar um tigre de um gatinho.

Equivale a dizer que Hitler e Jesus eram iguais. Pior: equivale a dizer que você é essencialmente igual ao que foi Hitler. Dizer que todo mundo é igual favorece os piores membros da espécie e praticamente anula a grandeza e o esforço dos melhores.

Por isso, não caia mais nessa, meu amigo.

Aprenda a diferenciar as coisas — e os homens — segundo suas qualidades e atributos. Afinal, é para isso que serve sua inteligência.

Como não fazer amigos, não pegar gatinhas e não influenciar pessoas

Como alguns adolescentes, aos treze anos eu era inseguro e assombrado pela interação social. Mas com o terrível acréscimo de que era um ‘nerd’: adorava quadrinhos de super-herois musculosos, revistas e programas de animes com japinhas gostosas, desenhos, filmes da Sessão da Tarde, do Cinema em Casa, Cine Band Privê e, muitas, muitas punhetas pela madrugada afora.

Tudo isso coisas que não me aproximavam nem das gatinhas nem da estima alheia.

A stranger in a strange land.

A moda na época era fazer cursinhos, e o Inglês era a bola da vez. Sorteado, caí de paraquedas no cursinho gratuito do município.vEu detestava o idioma gringo, principalmente por conta de dificuldades na pronúncia. ‘Strawberry’ — Oh, céus! — como querem que eu fale esse treco? A possibilidade de ser zoado por mais uma inadequação me era quase tão assustadora quanto o apocalipse cristão.

Pouco importava. Quem mandava em casa era o coroa. Lembram da ‘vondade geral’ de Rosseau? Era a vontade do meu pai.

No primeiro dia de aula, várias mulheres na turma. A maioria mais velhas que eu, o que achava menos pior. Na cadeira ao lado, Fernando, o garanhão da minha rua (‘Fernandinho’ para as meninas que, como a minha irmã, caiam babando por ele), meu completo antípoda: falso cristão, falso ‘cara legal’, sucesso com as mulheres, muito prestígio social (sei disso por que depois viramos amigos).

E eu lá, ‘o carinha esquisito’, torcendo pra aula acabar antes que fizesse alguma vergonha.

Mas quem disse que a vida é fácil? Não dei sorte; a teacher pediu que nos apresentássemos, começando por “hi, my name is… “ e depois seguindo no idioma de Camões.

Enquanto os outros falavam, eu transpirava, nervoso. “Por que senhor ? Por quê ? Não tenho sido um bom cristão ? Tudo bem, eu prometo que paro de ver putaria, prometo!”

Era uma prova, pensei. Eu tinha que passar. Se quisesse ser pregador, teria que aprender a falar em público um dia. O dia chegara.

Enfim, aceitei meu destino, encarando o desafio com resignação e coragem.

Chegada minha vez, fui confiante. Como todos antes de mim, levantei e falei.

Mal abri a boca e, em uníssono, todos gargalharam.

Demorei alguns minutos para perceber: eu falara ‘Hall’ ao invés de ‘Hi’. Com isso, entregara-lhes precisamente o que quis esconder; o fato de que eu era, naquela época e circunstâncias,

um completo bicho do mato,

comunicando-me tal qual um selvagem:

“Hall”

A Erudição do Charlatão

Em artigo originalmente publicado na (ótima) revista Café Colombo, Joel Pinheiro da Fonseca — mestre em Filosofia, baluarte do EPL e integrante do Partido Novo— ataca com unhas, dentes e argumentos um antigo conhecido e colaborador. O atacado é ninguém menos que Olavo de Carvalho, o famoso Guru da Virgínia.

O senhor Pinheiro, que vem conquistando um público cada vez maior, é figurinha carimbada nos meios liberais. Eu mesmo já fui fã de seu trabalho e devo a ele, entre outros, a possibilidade de, anos atrás, ler in portuguese divergências inteligentes e racionais às falácias histéricas do Guru e de seus asseclas. Coisa que se deu no finado Ad-Hominem, blog do qual Joel fez parte e onde travou duelos intelectuais com seus amigos olavettes. Onde vislumbrei pela primeira vez na internet uma esgrima intelectual jovem, madura e inteligente, sem os vícios, xingamentos e aberrações que tanto vi em outras páginas de esquerda e direita.

Contudo, apesar de minha simpatia para com Pinheiro, farei aqui, dentro das minhas limitações (que são muitas), um esforço em apresentar um sincero ponto de vista divergente do exposto em seu artigo. Tentarei apresentar um ponto de vista que, ao mesmo tempo em que reconhece certo charlatanismo em Olavo, reconhece também os aspectos positivos dele.

Em principio, estou completamente de acordo com a crítica que Joel traça ao ego acachapante, ao aspecto sectário e à afetação de sabedoria mística tão evidentes em Olavo. Como o mestre em filosofia argumenta, para aqueles que estão familiarizados com o modus operandi do Guru, com seu passado sufi-perenialista, com suas frequentes incongruências, com seus erros cabeludos, paranoias, acusações infundadas e absurdos teóricos, nada é mais notório que o fato de se tratar de um sofista bem preparado, empenhando em vencer e influenciar incautos à qualquer custo.

A questão que quero enfatizar, porém, é que embora Olavo possa atrair gente inteligente e racional para perto de si, acredito que ele, como qualquer guru, só é capaz de hipnotizar aquelas pessoas que já querem ser hipnotizadas.

Explico. Acho que Olavo se aproveita do sentimento de devoção religioso e da disposição de crença de centenas de jovens e fiéis católicos, notavelmente ignorantes em filosofia, mas ao mesmo tempo ansiosos para fundamentar suas expectativas religiosas e condenar a plenos pulmões tudo o que destoe de seus dogmas. Assim, Olavo põe no ar a velha ideia medieval de que a “filosofia é serva da teologia” e os fiéis sentem que aderindo ao credo católico-olavético estarão a contemplar a mais sofisticada e profunda das ciências. Aqui, vê-se que Olavo é, acima de tudo, um místico disfarçado de filósofo.

Já o Olavo político, que só é ouvido e levado a sério pelos sectarios fiéis conquistados através da erística místico-filosófica, aparece como uma bizarra síntese de Gurdgieff, Alborghetti, Joseph Mccarthy e Alex Jones. Uma cria autêntica do espírito brasileiro de compor misturas impossíveis.

Para pessoas razoáveis, é difícil levar Olavo de Carvalho a sério depois de ler o que Orlando Fedeli escreveu sobre sua “Gnose Tradicionalista”. Ou depois de saber que ele, Olavo, rejeita a Teoria da Relatividade, defendendo a terra como centro do universo. Ou, ainda, que covardemente desistiu de um debate — que já havia sido marcado — com o vlogger e Biólogo Pirulla. E fica mais difícil quando compararmos seu comportamento de vinte anos atrás ao comportamento que tem hoje. Vê-se que o homem anda cada vez mais paranoico e enfurecido, vendo em todo lugar “agentes não pagos” do KGB.

Por isso, penso, Olavo só é levado a sério por gente desinformada ou fiéis que seriam capazes de levar a sério qualquer irracionalismo, qualquer guru, uma vez que a cosmovisão religiosa é pautada por uma necessidade de crença no absoluto e não pela necessidade de investigação sobre a natureza última da realidade, como é requisito da busca filosófica.

Entretanto, para nós outros — não olavettes em geral — , Olavo aparece como uma figura ímpar que merece ser lida e analisada, que merece ser discutida por quem pode evidenciar com racionalidade e seriedade suas paranoias e equívocos, justamente para desmascará-los. Falo aqui de conhecedores da obra de Olavo que hoje se opõe a ele, como Francisco Razzo, Jorge Velasco, Caio Rossi e o próprio Joel.

Apesar disso, é importante lembrar que não é em tudo que o guru se equivoca. Ouso dizer que há coisas boas na obra olavética. Sem dúvidas, a melhor delas é a diversidade de referências bibliográficas e intelectuais (“a bibliografia arcana” como chamou um amigo). Eu mesmo, por exemplo, conheci o excelente Antônio Paim lendo artigos do Olavo. E sei que muita gente só atentou para autores como Vilém Flusser, J.G. Merquior, Meira Penna, Alan Sokal, Otto Maria Carpeaux, Roger Scruton, Mario Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva depois de ler artigos dele ou de seguidores. Neste caso, ao menos devemos reconhecer que Olavo é eficiente em indicar autores notáveis. Ao menos como propagandista de intelectuais de peso ele presta.

Em segundo plano, como temas relevantes na obra de Olavo, pode-se citar as explanações sobre importância da Filosofia e Educação Clássica; validade de sistemas de ensino como Trivium e Quadrivium; discussões metodológicas sobre o filosofar; discussões sobre a argumentação, a erística e a lógica simbólica; assim como sobre a questão da importância da biografia de determinado filósofo no que se refere ao entendimento de sua filosofia. Tudo isso aparece na obra do guru, as vezes em forma de duelo com intelectuais divergentes. A rigor, tais conteúdos me parecem questões pertinentes e que devem ser discutidas.

Quando o assunto é Olavo, há que se falar também da questão do desenvolvimento intelectual dos indivíduos, coisa que se dá através do fundamental encontro com o erro. Eu mesmo já fui olavette e — quão difícil é confessar! — já andei a ruminar contra o Foro de São Paulo.

Sei que Joel e tantos outros já passaram por essa fase também. E suspeito que se voltarmos um pouco mais no tempo, veremos que provavelmente já fomos também mais inocentes às ideias de esquerda e às armadilhas da vida intelectual como um todo. Agora, um pouco mais preparados, podemos constatar que evoluímos e fomos desenvolvendo, aprimorando, nossa capacidade de juízo. Ora, tal progresso seria completamente impossível se não tivéssemos errado, não é mesmo? Afinal, que é o progresso senão a superação dos erros? Olavo é, creio, um dos erros mais importantes pelos quais devemos passar.

Costumo dizer ao meu irmão que há três passos para se iniciar na vida filosófica e intelectual: O primeiro é refutar o relativismo; o segundo é refutar o marxismo; e o terceiro é refutar o olavismo. Certamente que é uma piada, mas não deixa de ser séria. Creio mesmo que é preciso dialetizar, absorver o que há de bom e depois derrotar a erística olavética. Insisto que para o real investigador do mundo não há outra alternativa: é preciso investigar toda filosofia — ou filodoxia — que reivindique o status de verdade última.

Puxando sardinha para o meu lado, faço notar que outro tema importante na obra de Olavo é o estímulo ao autodidatismo, aspecto educacional e cognitivo praticamente ignorado no sistema de ensino oficial. Jamais conheci um intelectual de língua portuguesa que desse tanta ênfase à curiosidade intelectual autônoma e espontânea e ao mesmo tempo fosse tão acessível quanto Olavo, e digo isso como um interessado em autodidatismo.

Não que não haja grandes defensores da pedagogia libertária entre os intelectuais brasileiros. Ainda reluzem os nomes de Jaime Cubero e Maurício Tragtenberg entre os expoentes do assunto. Mas, verdade seja dita, nenhum deles possui a mesma acessibilidade que a obra de Olavo.

Vejamos, por exemplo, o meu triste caso. Sou um sujeito pobre, e livro no Brasil é um troço bastante caro. Bibliotecas públicas, para quem mora no interior, são sempre distantes e extremamente precárias. Se desejo me educar, me informar, e então passo a ter contato com a obra de um sujeito preocupado justamente em não se prender a ideia de que educação é algo externo, feita num lugar específico e validada por carimbos oficiais; sendo ainda um sujeito culto e com variadas referências bibliográficas, é óbvio que ele terá papel importante em incentivar minha vida intelectual.

Precisamente o mesmo incentivo que me levou a instruir-me sobre posições outras e chegar até intelectuais como Joel Pinheiro ou mesmo o heterodoxo e interessantíssimo Uriel Irigaray. Nesse aspecto, Olavo está muito a frente dos intelectuais da academia que falam para pessoas que desejam carimbos e ignoram por completo as que estão ávidas por conhecimento. Afinal, porque as pessoas fora da universidade não poderiam buscar se educar e obter um bom nível cultural e humanístico? A falta quase total de consideração aos autodidatas deste país mostra que tal questão nem sequer passa pela cabeça de nossos pedagogos.

De qualquer forma, assuma ou não o Joel, a verdade é que Olavo tem lá suas qualidades, algumas das quais procurei mencionar neste texto. Além disso, Olavo também tem mérito: é o pai espiritual da Nova Direita, sendo uma figura proeminente no novo vigor que recebeu o ambiente intelectual brasileiro, principalmente na internet, particularmente nos últimos dez anos.

Sem dúvidas, é preciso falar sobre ele. Diria ainda que é preciso lê-lo e enfrentá-lo, e até mesmo expô-lo como fez o Marco Antônio Villa, como o próprio Joel está a fazer agora.

Enfim, digo com todas as letras: até que apareça um intelectual popular, realmente culto e bem mais simpático, o Guru da Virgínia será um mal necessário. E os que, como Joel, Uriel e Razzo, conseguirem passar por ele, certamente sairão fortalecidos e poderão contribuir intelectualmente, confrontado as incongruências do guru e abrindo os olhos das pessoas.

A solidão positiva

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Ludwing Wittgenstein, que deliberadamente se isolou para realizar um dos trabalhos filosóficos mais impactantes do século XX.

 

Os relacionamentos interpessoais, especificamente aqueles que não se baseiam exclusivamente no pragmatismo das necessidades cotidianas, só valem à pena quando o desenvolvimento individual — intelectual, moral, emocional — dos membros atinge maiores alturas do que ocorreria com os indivíduos isoladamente.

Se a companhia de um ser humano x não me acrescenta uma probabilidade de evolução maior do que a minha própria companhia, então a solidão (que é ter apenas a minha própria companhia), será mais produtiva evolutivamente do que a companhia de x.

Esse é um raciocínio simples que explica por que ficar sozinho pode ser muito mais produtivo do que se relacionar com uma determinada pessoa. Subindo um degrau, penso que o mesmo raciocínio pode ser aplicado a grupos sociais.

O que há de interessante aqui é a informação (talvez nova para alguns) de que, em alguns contextos,  ficar sozinho produz uma evolução maior do que participar de grupos.

Daí que no atual status quo do mundo em que vivemos, ser solitário, para algumas pessoas, tem mais a ver com a baixa oferta de indivíduos notáveis, aqueles indivíduos que podem oferecer contribuições significativas ao aperfeiçoamento do homem, do que com algum pretenso ódio as pessoas, misantropia ou alguma outra psicopatologia.

Em síntese; algumas pessoas precisam ficar sozinhas pois, no meio em que vivem, essa é a maneira mais eficiente de evoluírem.

Estoicismo Conservador

Se há um juízo que considero verdadeiro é a noção de que, nesse mundo em que vivemos, TODAS as coisas boas – o amor, a amizade, a lei, a honra, a honestidade, a justiça, a moral, etc – são extremamente frágeis e demandam de nós um esforço colossal para serem mantidos sem perderem a essência.

A lei da tendência à entropia parece não se aplicar apenas a  sistemas físicos, mas também à realidade ontológica das relações e construções humanas: tudo que é bom é fácil de ser perdido, roubado, arruinado. O  mal, por sua vez, nos é dado naturalmente – não é a barbárie o estado natural do “sapiens-sapiens”?

É aí que reside, penso, a grande força do pensamento conservador. A ideia de pecado, de tendência natural ao erro, de desconfiança da capacidade humana, torna-se um complemento essencial ao liberalismo iluminista. Pode-se dizer que um conservador será sempre mais realista que um liberal, enquanto um liberal será sempre mais realista que um socialista.

Diante das loucuras e incongruências humanas o socialista irá se deprimir e propor ‘um outro socialismo’ e ‘um outro homem’, o liberal vacilará na sua crença no progresso e na ciência, já o conservador, estóico, se limitará a dizer o seu ponderado  “eu avisei”.

Algumas palavras sobre o autor e o blog

Começo já esclarecendo que  uso o termo “escritor” num sentido meramente descritivo.  Longe de mim querer me igualar aos grandes expoentes dessa arte.  Ocorre apenas que, de fato, escrever é uma atividade recorrente e necessária em minha rotina. Escrevo. Sou daqueles que se sentem obrigados a escrever. É um imperativo, não uma escolha. Mas é também a atividade complementar a uma outra, a leitura, que também me sinto obrigado a praticar. Leio e escrevo. Sou, pode-se dizer, viciado em ler e escrever.

É verdade que não leio tanto e tão bem quanto gostaria, e também é verdade que não escrevo tão bem quanto gostaria. Minha escrita é, no máximo, “passável”: consigo me fazer entender e só. De resto, me falta conhecimento gramatical, lexical, semântico, sintático e, mais do que tudo, me falta estilo.  Aos poucos, contudo, pretendo ir superando essas deficiências.

Do mesmo modo, uso o termo “crise” num sentido puramente descritivo. Por motivos variados, ando sempre em crise. Algumas duram segundos, outras duram anos. Todas, contudo, me levam a refletir sobre a tragicomédia surreal e absurda que é a condição humana, que é o Brasil e que é minha vida. E tais reflexões  me levam a ler e a escrever cada vez mais, na busca de encontrar significado e compreensão.

Este não é meu primeiro blog, nem é o meu quarto ou quinto. Já devo ter iniciado mais de dez blogs, e em todos eles tinha a plena convicção de que jamais deveria falar sobre mim, sobre minha vida particular e sobre meus reais pensamentos. Veja bem, não sou do tipo que gosta de exposição. Além disso, tenho algumas opiniões polêmicas, e vivemos em tempos politicamente corretos, onde as pessoas perdem empregos e são difamadas por suas opiniões,  até mesmo quando não estão falando tão sério assim.

Mas o tempo foi passando e  fui percebendo que, por conta de minha vida instável, não conseguiria manter nenhum blog com posts periódicos que não tratasse, de um modo ou de outro, direta ou indiretamente, dos problemas que me assolam. Claro que me parece algo voltado ao próprio umbigo e bastante medíocre, mas , afinal de contas, o que eu poderia fazer?  Claro que eu poderia tentar me isolar numa Torre de Marfim escrevendo apenas sobre meus interesses mais impessoais, se é que algum interesse pode ser impessoal. Mas não seria sincero e eu nem teria a motivação necessária. Portanto, é algo que terá que ficar para o futuro. Agora, precisamente agora, me resta falar sobre o mundo que orbita meu umbigo.

Obviamente, por conta dessa mediocridade inerente, não posso ter grandes expectativas sobre este blog. E é mesmo provável que ele vá interessar apenas a mim. Bem, isso já não me incomoda mais. Tudo que preciso agora é ser minimamente sincero e dizer o que quero dizer. Não haverá filtro, não haverá temas pré-fixados. Escreverei o que precisar escrever, refletirei sobre o que me sentir obrigado a refletir.

Não é grande, não é muito e serão apenas palavras. Mas serão sinceras. É pouco, eu sei. Mas, ao menos por enquanto, é tudo o que este pequeno e iniciante escritor pode oferecer.