Outro dia, um amigo, jovem e muito inteligente, solicitou algumas considerações minhas sobre solidão. Poucos dias depois, outro amigo, sem relação com o primeiro, mas também inteligente e jovem, perguntou-me se a vida intelectual era necessariamente solitária.

Nesta semana, outro camarada, inteligente e um pouco mais velho, comentou que havia desistido de tratar as pessoas como intelectualmente equivalentes. Esse amigo finalmente percebeu que era melhor respeitar os limites delas e, na vida prática, evitar exigências cognitivas e reflexivas que estivessem muito além desses limites. Afinal, como é sabido por todos, o homem comum não está apto a refletir. Disse-me, o meu amigo, que era melhor que as pessoas se sentissem no controle e mais inteligentes, pois assim era mais fácil manipulá-las e aturá-las (Esse amigo trabalha numa posição de liderança, numa organização prestigiada, onde precisa exercer autoridade e influência).

Hoje, um quarto confrade – também inteligente e um pouco mais velho que os dois primeiros – confessou que havia chegado a conclusão de que uma vida intelectual rica não é possível perdendo tempo com todo mundo. Nas palavras desse amigo:

“..Acho que nós, amantes do conhecimento, temos mesmo é que caminhar sozinhos a maior parte do tempo. Não dá para querer ser o herói dessa gente, sem se perder no processo, sem perder energia vital que poderia ser utilizada em outros projetos…”

Pois bem. A experiência e a conclusão dos dois amigos mais velhos responde as dúvidas dos dois amigos mais novos. Contudo,  sei que meus dois amigos não me  fizeram tais perguntas porque não soubessem, ou não intuíssem, as respostas. Sei que já sabiam.

Perguntaram-me  pois  me julgam honesto o suficiente para lhes ser sincero. Sabiam que se perguntassem a outro iriam ouvir alguma conversinha demagógica sobre como “todo mundo tem algo a ensinar” ou sobre “como se deve aprender com todo mundo” ou ainda sobre como é importante ter  “uma vida social eclética e variada” e  “estar bem inserido na sociedade”.

Bom, se o que se quer é ser como qualquer um, fazer as coisas no nível de qualquer um, pensar como qualquer um, então o caminho é, realmente, se misturar com qualquer um, ouvir qualquer um, fazer o que todo mundo faz e, em consequência, obter os mesmos resultados e ser como o homem médio, com aquele QI médio nada lisonjeiro, típico de uma sociedade cuja cultura contém uma dose extremamente elevada de anti-intelectualismo e de praticidade imediatista.

Por outro lado, se o que se quer é obter resultados superiores, compreensão superior, ser diferente da turba, será necessário agir de modo diferente da turba. É preciso saber que a vida intelectual, nos seus aspectos mais exigentes, mais elevados, não é uma escolha, mas um sacerdócio. É vocacional, não é para qualquer um. Ela exige mais do que o homem comum está disposto a sacrificar.

Quanto maior e mais profunda for a compreensão de um homem sobre um assunto, mais dificuldade as pessoas terão para compreender o que ele está dizendo, e por conta dessa dificuldade, menos interesse elas terão. Não estão dispostas a fazer os mesmos sacrifícios para adquirir as mesmas habilidades cognitivas, a mesma profundidade e a mesma sensibilidade intelectual.  Isso acontece em qualquer área do conhecimento, é um padrão que tem a ver com a estrutura hierárquica do conhecimento, que reflete a estrutura hierárquica da Natureza.

Há uma ótima entrevista com o Richard Feynman na qual, em termos epistemológicos, ele ilustra bem o ponto em questão. Feynman  – um dos maiores físicos do século passado –  explica sobre a  impossibilidade de um entendimento elevado, ao homem comum, quando esse conhecimento vai além de certos limites populares e de certa linguagem popular. Não há como fugir disso. Seja para a Física, seja para a Antropologia, seja para qualquer área do conhecimento organizado.

Então, sim. A vida intelectual é, em certa medida, necessariamente solitária, pois por mais que se possa criar  uma fraternidade de sábios e eruditos, para aplacar essa solidão, a quantidade de sábios e eruditos disponíveis nunca será tão abundante quanto a quantidade de pessoas comuns – pouco sábias, pouco eruditas –  disponíveis.

O que torna, em média, o intelectual, o amante do conhecimento, mais solitário do que o homem comum. Se isso já é verdade para países cuja cultura valoriza mais o conhecimento, como a Inglaterra e E.U.A, é uma verdade ainda maior para um país de marcada tradição anti-intelectual como é o Brasil.

Os companheiros mais frequentes do intelectual são os bons livros, as boas músicas e os bons vinhos. Quem possui pretenções intelectuais deve, antes de tudo, considerar essa realidade.

 

 

 

 

 

 

 

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