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Dois anos frequentando a Biblioteca da escola quase todos os dias mudou minha vida.

Pergunta-me o amigo sobre minha jornada intelectual. Que lhe posso dizer? Antes de tudo, devo dizer que não está concluída, mas em curso. Sobre minha motivação; foi, pura e simplesmente, uma empreitada individual, induzida por uma constatação e consolidada por uma escolha pessoal.

Desde a pré-adolescência, quando pude conscientizar-me melhor das coisas, minha mente, diante da complexidade do mundo, era assolada por questões, problemas, fenômenos, mistérios, que eu desejava compreender, saber a verdade a respeito. O deslumbramento com o mundo e seus elementos me intrigava, produzindo em mim o “desejo de conhecer” do qual falava Aristóteles. A Libido Sciendi, no termo dos escolásticos. Sentia e sinto, cá em minha alma, a paixão investigativa, detetivesca, que move cientistas, filósofos e todo o tipo de investigadores, que corresponde a um certo amor pelo conhecimento, pela verdade.

Foi essa paixão (ou um conjunto de paixões afins) que me moveu a, laboriosamente, ir galgando degraus na jornada do conhecimento, do entendimento, das ciências, da filosofia, da sabedoria, da educação, dos aspectos nebulosos da vida…

Em outras palavras, na vida “real”, ninguém jamais disse-me que deveria me esforçar para compreender racionalmente as coisas. Diziam-me para “estudar” (o que, para eles, significava freqüentar instituições de ensino e concluí-las), diziam-me para obter diplomas, diziam-me para obter um emprego que me concedesse estabilidade financeira e diziam-me para ir à Igreja. Na mentalidade dos meus instrutores, não havia espaço para alimentar e procurar responder indagações pessoais profundas sobre a natureza das coisas. Queriam antes que minha vida fosse tão medíocre e sem sentido quanto as deles.

Como já disse, haviam dúvidas na minha cabeça. E por mais que  às vezes eu tentasse me enquadrar, as dúvidas continuavam lá, a me angustiar. O mundo me parecia complicado. Como provar que Deus existe? Por que há tantas guerras? Por que há tantas religiões? Por que derrubaram o Word Trade Center? Por que meus pais acreditam em Deus, mas muitos cientistas não? Por que Deus faz chover maná do céu, mas não faz chover dinheiro para os pobres? Por que Deus não faz crescer outros membros nos amputados? Se Deus é bom, por que existe tanto mal no mundo? Por que tenho que freqüentar a escola e igreja se nelas ninguém responde minhas perguntas?

De início, pensava-me muito tolo. Imaginava que todas as pessoas compreendiam bem como as coisas funcionavam e que apenas eu não. Mas aos poucos fui notando o equívoco: enquanto, na vida intelectual, eu ia descobrindo e me assustando com minha ignorância, a maioria das pessoas, que jamais haviam experimentado uma vida intelectual autêntica e autônoma, não tinham a menor idéia da dimensão da própria ignorância. Tal autoconhecimento lhes escapava, pois a vida inteira haviam aprendido a silenciar suas dúvidas e… obedecer e seguir autoridades.

Logo comecei a testar a inteligência das pessoas. Dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus professores. Foi a experiência mais frustrante da minha vida. Ficou claro que eu estava cercado de ignorantes. Por outro lado, finalmente a sociedade brasileira, e a estrutura da sociedade em geral, foi fazendo sentido para mim. Passei a entender por que a linguagem corrente dos meus pais e mestres era tão pobre em comparação com a linguagem dos escritores de livros. Estavam em níveis mentais, em níveis de compreensão, de léxico e de informação, distintos. Os autores de livros entendiam o mundo ou aspectos relevantes do mundo, a ponto de falar sobre eles de modo lógico, estruturado, belo e racional. Meus pais e professores não.

Uma experiência decisiva foi, durante alguns anos, frequentar assiduamente a biblioteca da escola, lendo tudo o que me interessava. As vezes, matando aula. Três livros chave que li nesse período, que foi mais ou menos dos quinze aos dezessete, foram: Breve História de Quase Tudo (sobre história da ciência e da humanidade); O Mundo de Sofia (um romance clássico sobre a história da filosofia); e Fernão Capelo Gaivota (sobre retiro social e evolução espiritual em contraponto ao espírito de manada). O primeiro me ensinou o quanto a história dos progressos da humanidade era indissociável da história do conhecimento; o segundo me ensinou que, realmente, pensar e questionar, em níveis mais profundos, não era uma habilidade comum e popular; e o terceiro me ensinou que para evoluir seria necessário conflituar e me afastar da sociedade.

Assim, aprendi que a maioria não estava interessada em compreender as coisas. E que a maioria não havia aprendido que, com esforço e compromisso intelectual, era possível responder as próprias dúvidas de forma inteligente e profunda, inclusive trazendo reflexões e descobertas importantes para a comunidade humana,  tal como cientistas, artistas e filósofos tinham feito ao longo da história. Além disso, ficou claríssimo para mim que, em geral, autores e personagens de livros eram mais inteligentes e mais interessantes que as pessoas comuns. Uma lição que parece se tornar mais verdadeira a cada dia.

 

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