Miscigenação, Machado e os Clássicos

Certa vez, um amigo nerd me disse que eu tinha “alma de branco”. Sorri, complacente, entendendo perfeitamente o que ele queria dizer. Sempre me vi mais ou menos como Machado de Assis se via. Machado era miscigenado, tinha ascendência ao mesmo tempo negra e portuguesa. Notem o caráter essencialmente ambíguo, que explica, em parte, o talento do bruxo para construções irônicas.

Machado, que nasceu pobre E gago E mestiço. E que mesmo assim se autoeducou.
Ainda jovem, ao ler os clássicos, nosso maior escritor incorporou em sua forma de pensar tambémos padrões mentais do ocidente. Curiosamente, comigo (sendo eu, provavelmente, o nosso menor escritor) aconteceu a mesma coisa. Nasci pobre e cresci pobre (era até uma pobreza confortável, tínhamos piscina em casa). Morei numa cidade sem beleza e caótica, mas os livros me abriram as portas para Paris, Londres, Glasgow, Sicília, Rússia, Canadá, Madagascar, África do Sul, Tanzânia e Alemanha, entre outros lugares. Os livros me deram a honra de conhecer Marco Aurélio e Maquiavel, Socrátes e Descartes, Marie-Anne Paulze e Mary Shelley.

Viajando por tantos lugares, conhecendo tantas ideias e pessoas interessantes no mundo inteiro, era natural que eu gostasse de ler. Então, igualzinho a Machado, continuei lendo os clássicos. Por anos. E, como Machado, me descobri ambíguo. Mas o meu caso era pior, muito pior. E sabem porquê?

Pelo simples motivo de que além de ascendência negra e espanhola, tenho também ascendência judaica e indígena. Se Machado era ambíguo, eu sou a ambiguidade e a esquiva em pessoa. Minha alma está fracionada em quatro. Mas, desses quatro espíritos, os únicos cujo legado chegava até mim era o dos malditos brancos ocidentais. Ora, o amigo leitor há de convir que melhor esse legado do que nenhum. E fui conferir o legado ocidental. Anos depois, cá estou, a pensar sobre como esse legado me moldou e me ajudou a ficar mais inteligente, mais culto, mais sábio e dar algum sentido à minha existência frágil e destroçada (para isso, fazendo coisas como este meu vil e repugnante hábito de escrever).

Como Machado, não deixei de me apropriar do que havia de valoroso na cultura do Ocidente apenas por que os brancos do passado foram um bocado estúpidos e grosseiros com os outros povos.

Machado, que além de ser pobre E mestiço E gago era TAMBÉM epilético. E mesmo assim foi mais genial que qualquer branco metido da época.

Sejamos honestos com o homem branco: desde Caim e Abel os homens estão sendo estúpidos e cruéis uns com os outros. A esquerda não sabe disso porque faltou catecismo, ou não prestou atenção. É sério: afinal, alguém pode me explicar porque motivo o homem branco haveria de não ser estúpido, dominador e aventureiro, como em geral são os homens? Crer no contrário é pressupor, indiretamente, que o homem branco possui alguma superioridade moral sobre os outros povos. Faço notar que os magistrais autores do Destino Manifesto, do Mein in Kampf e os digníssimos membros da Ku Klux Klanpensavam exatamente desse modo, defendiam, com furor revolucionário até, essa pretensa superioridade moral dos brancos.

Eu não. Quando soube de Caim e Abel aprendi que os homens são estúpidos e problemáticos desde o início dos tempos, inclusive o tão badalado homem branco. A estupidez, aliás, parece uma das poucas coisas que Deus distribuiu de modo igual entre os povos. Sabendo disso, nunca tive lá grandes motivos para me surpreender com os erros que os homens cometem. Mas os acertos, esses sim me surpreendem. Tanto que eu me dediquei a estudar os acertos dos povos e aprender com seus erros, inclusive do povo branco ocidental.

Machado, que além de ser pobre, mestiço, gago e epilético, sabia mais de Shakespeare do que o seu atual professor de Shakespeare.
Voltando ao meu amigo: sabia perfeitamente que ele estava querendo dizer que eu não tinha problemas para compreender o modo de pensar ou as instituições do ocidente. Mas também aludia ao fato de que essa habilidade não é comum nos negros e mestiços do Brasil.

Essa rara habilidade é o motivo pelo qual eu nunca tive particular afinidade com qualquer coisa que estivesse associada a uma suposta “cultura negra brasileira”. Eu lia e gostava de conversar sobre livros. Então, mesmo sendo mestiço e relativamente pobre, nunca conseguia participar da cultura popular associada a gente mestiça e pobre. Ocorre que havia pouca coisa em literatura sobre os incríveis e fenomenais MC’S e os pagodeiros da minha infância. Por algum motivo que me escapa — relevância, talvez — os autores mais inteligentes não estavam escrevendo sobre eles. O EgitoNapoleão e Einstein pareciam temas mais incríveis e fenomenais. E havia muita literatura sobre eles. E assim eu escapei de ser escravo do futebol e da gloriosa Rede Globo (para quem a inteligência do telespectador médio é a mesma do Homer Simpson).

Comentei com um amigo, também mestiço- embora metido a negão: “você é o segundo preto culto que eu conheço. O primeiro foi eu”. Ele caiu na gargalhada. Entendeu perfeitamente o que eu queria dizer.

Em geral, o negro e o mestiço estão relegados ao esporte e às artes. Adentrar na vida intelectual é quase um pecado. Ler Homero, Dante ou Dostoiéviski é deixar de ser comedor e popular.

Cá em Brasília, encontrei um negro inteligentíssimo. Lera muito mais literatura que eu. Lia de Burroughs a Beckett, cursava Filosofia e sua aparência lembrava Basquiat. Obviamente ficamos amigos. E ao comentar sobre a raridade de nossa situação, ele concordou:

É difícil achar um preto que também goste de ler”.

Milton Santos. Um dos poucos que correu dos estereótipos. Não era comedor e nenhum galã de novela, mas deu aula no MIT , sabia mais de História e Geografia do que seu melhor professor de História e Geografia e seu nome é lembrando como uma das mentes mais inteligentes que o país já teve.
E nós lamentamos. Ele o futebol, eu a cultura do Funk e do Rap. E ambos concluímos que não era exatamente o problema de se focar em um nicho cultural (eu gosto de Mv BillRacionais, Projota, Dexter, APC 16 Gabriel o Pensador), mas sim se tornar preso a ele, incapaz de apreciar o que há de bom nos outros fenômenos culturais, nas histórias, nas artes e nos talentos dos outros povos, raças, etc.

Por isso jamais comprei o discurso de que os negros são pobres coitados oprimidos pela elite branca maligna. Ou de que os negros e mestiços são pobres, inferiores, burrinhos e precisam de cotas. Não, nada disso. O que os negros, os mestiços, e todos os brasileiros precisam é uma só coisa: mais cultura e mais leitura. É o provincianismo ególatra e ressentido que apequena , ilude e destrói nosso país e nosso povo.

As pessoas não fazem ideia do quão ricas podem ser as viagens interiores. Ou do quão sábias e revigoradas elas podem voltar da leitura de um bom livro.

O brasileiro precisa viajar mais pelo mundo (se não tiver grana, que o faça literariamente. A experiência interior em nada perde para exterior) e mais pelas mentes dos homens mais inteligentes do passado, independente dos erros que eles tenham cometido. Façamos como fizeram Machado e Milton Santos, que foram homens mais inteligentes do que nós: tratemos de devorar os Clássicos, nos apropriar da Lógica e das Ciências e saber utilizar esses conhecimentos para melhorar nossas vidas. Afinal, mais conhecimento, mais cultura e mais inteligência nunca é demais.